Industrializar é só parte da resposta

Industrializar é só parte da resposta
Tem uma frase que se tornou quase automática quando o assunto é construção civil: falta mão de obra, então precisamos industrializar. Ela aparece em eventos, entrevistas, reportagens e apresentações de empresas do setor, e não é uma afirmação sem fundamento, pois os dados mostram que a dificuldade para contratar profissionais qualificados cresce ano após ano, enquanto funções que sempre fizeram parte da dinâmica do canteiro, como a do mestre de obras, vão se tornando cada vez mais raras.
O que me incomoda não é essa conclusão, mas o fato de a conversa quase sempre terminar nela. Sempre que ouço que a industrialização é a resposta para a falta de mão de obra, fico com a impressão de que estamos deixando uma pergunta importante de lado: quem vai conduzir essa mudança?
Industrializar não significa apenas trocar um sistema construtivo, significa trabalhar de outra forma.
Projetar considerando fabricação e montagem, integrar projeto, produção e logística, entender processos industriais, coordenar etapas que antes aconteciam de maneira completamente diferente, tudo isso exige um conhecimento que não fazia parte da construção convencional, e é justamente aí que vejo uma lacuna.
Enquanto discutimos a falta de profissionais da construção tradicional, falamos muito pouco sobre quem está sendo preparado para trabalhar com essa nova lógica. Vejo que boa parte das universidades brasileiras ainda dedica pouco espaço aos sistemas construtivos industrializados, muitos arquitetos e engenheiros chegam ao mercado sem ter tido contato consistente com construção modular, Wood Frame, Steel Frame ou outros métodos offsite durante a graduação.
A construção civil está mudando, como a tecnologia evoluiu e a formação das pessoas não acompanhou esse ritmo, por isso, tenho dificuldade quando a industrialização é apresentada como uma solução direta para a escassez de mão de obra, porque a meu ver, na prática, estamos substituindo uma demanda por outra. Se antes precisávamos de profissionais especializados na construção convencional, agora precisamos de pessoas capazes de projetar, especificar, produzir, montar e gerir processos completamente diferentes.
Essa transição não acontece apenas porque um novo sistema construtivo passou a existir, ela depende de gente e formar pessoas leva tempo.
Talvez esse seja um dos maiores desafios da industrialização no Brasil hoje. Não desenvolver novas tecnologias, isso a indústria já vem fazendo, o desafio é desenvolver conhecimento na mesma velocidade.
Nos próximos anos, acredito que veremos muitas empresas investindo em novos sistemas construtivos, mas poucas olharão para aquilo que realmente sustenta essa transformação: as pessoas.
Nenhuma inovação se consolida apenas por existir, ela só acontece quando existe gente preparada para fazer com que ela funcione.