FEICON 2026: O que as palestras pregaram e o que os pavilhões venderam.
FEICON 2026
O que é, o que foi e o que eu vi por lá
A FEICON é a maior feira de construção civil da América Latina. Nesta edição, mais de 1.200 marcas expositoras ocuparam os oito pavilhões do São Paulo Expo durante quatro dias. Ela abre o calendário da construção no Brasil todo ano e por isso carrega um peso simbólico grande para o setor.
O destaque desta edição foi a Feiconference: a Conferência Internacional de Construção e Arquitetura, que reuniu especialistas nacionais e internacionais. Passei o meu primeiro dia de feira imersa lá, e foi o mais rico da minha experiência na FEICON.
O diagnóstico foi duro, mas necessário
As palestras trouxeram dados que, para quem trabalha com construção industrializada, soam como justificativa diária. No primeiro trimestre de 2026, 82% das empresas de construção civil relataram dificuldades na contratação de trabalhadores qualificados, o maior índice desde 2012. O custo da mão de obra cresceu 9,23% no mesmo período, logo se percebe que a escassez não é conjuntural, é estrutural.
A produtividade do setor, por sua vez, entre 1995 e 2022, caiu 0,62% ao ano e segundo estudos da FGV para o SindusCon-SP, a construção civil brasileira é, em média, 30% menos produtiva que outros segmentos da economia do país. E o desperdício ainda domina o canteiro: o índice de perdas na construção civil gira entre 30% e 40% e com a digitalização do processo construtivo, essas perdas poderiam cair para 5%.
Esses números apareceram nas palestras, foram citados, discutidos, contextualizados. E a conclusão que permeou nas palestras foi: industrialização, BIM e inteligência artificial são o caminho.
Industrialização = organização + mecanização.
Previsibilidade é a nova produtividade.
O projeto precisa nascer do sistema, não ser adaptado a ele depois.
Discurso sólido, diagnóstico real e dados que assustam.
E então você sai do ambiente das palestras e entra nos pavilhões dos expositores, a cena muda completamente.
A contradição que ninguém nomeou
A feira é enorme mais de 1.200 marcas, um ecossistema inteiro da construção civil, mas é, essencialmente, uma feira para construtores, engenheiros e mestres de obra que trabalham do jeito que sempre trabalharam. Alvenaria convencional, materiais tradicionais, soluções para obra úmida, para o canteiro artesanal, para o processo que desperdiça entre 30% e 40% do que compra.
A industrialização que ocupou dois dias de debate não tinha espaço equivalente nos pavilhões. O BIM que foi apresentado como ferramenta essencial não aparecia nas conversas de quem mais vende no mercado. A IA que vai transformar a gestão das obras estava nas telas das palestras e não nos corredores de exposição.
É o clássico "faça o que eu falo, não faça o que eu faço", só que em escala setorial.
Não é hipocrisia, é um gap real entre o pensamento de vanguarda e a prática da maioria. Entre quem já entendeu para onde o setor vai e quem ainda responde à demanda de onde ele está, os números das palestras assustam, mesmo assim, o mercado segue no convencional, no desperdício, na adaptação de projeto que deveria nascer de sistema.
Encontrei soluções pontuais e bem resolvidas, principalmente em vedações, acústica, impermeabilização e sistemas especiais, que fazem sentido dentro de uma lógica construtiva mais industrializada. Mas são ilhas, entende? Industrialização como sistema, como processo, como cultura de projeto: isso ainda não chegou na exposição, chegou apenas nas palestras.
Por que a adoção é lenta e não é só cultura
Há um dado que a FGV aponta e que explica muito da resistência do mercado: a estrutura tributária brasileira pune os componentes industrializados e beneficia a produção artesanal no canteiro. A aquisição de estruturas pré-moldadas para montagem é mais cara, do ponto de vista tributário, do que fabricá-las no próprio canteiro, apesar de toda a sua maior eficiência.
O problema não é só cultural. Há uma distorção sistêmica que desincentiva exatamente o que o mercado mais precisa.
Entre as principais causas da baixa produtividade estão a fragmentação entre projeto, planejamento e execução, o predomínio de métodos construtivos tradicionais, a falta de padronização dos projetos e a baixa qualificação profissional. São problemas que a construção industrializada resolve na raiz, quando o projeto nasce do sistema, e não o contrário.
Um estudo da McKinsey Global Institute avaliou 100 grandes projetos brasileiros e constatou que 80% deles tiveram aumento de custo e atraso de quase 20 meses no cronograma. Não é má sorte, é método ou a falta dele.
O que fica
A FEICON 2026 mostrou que o setor começa a entender que tecnologia, dados, sustentabilidade e gestão não são mais tendências futuras, são requisitos do presente. Mas entender e praticar são coisas diferentes. O conhecimento que circulou nas palestras ainda não desceu para os pavilhões e menos ainda chegou aos canteiros.
Sem projeto que nasce do sistema, não tem industrialização, tem adaptação. E adaptação custa caro em prazo, em dinheiro e em retrabalho.
O mercado cresce, a mentalidade está chegando, devagar, mas chegando.
A próxima edição da FEICON já tem data confirmada: 6 a 9 de abril de 2027. Até lá, o mercado tem muito chão pela frente.